Até que enfim iniciou-se nossa francisação, que por opção nossa está começando com atraso. Acontece que para nós participarmos da mesma era necessário informar o endereço residencial, e como estávamos temporariamente em Montréal durante os dois primeiros meses, e sabendo que não seria lá a nossa residência definitiva, então procuramos os devidos órgãos do governo e informamos que ainda não havíamos decidido onde morar, conseqüentemente retardando o início do curso da francisação, porque um dos interesses do governo é que a pessoa more o mais perto possível da escola onde se realiza o curso.
Sanado esse problema e tendo informado ao governo que já tínhamos uma residência definitiva, então restou apenas esperar o início da turma seguinte.
Após informarmos nosso endereço ficamos esperando a confirmação de quando e onde seria o nosso curso aqui em Laval, torcendo muito que fosse em uma escola localizada exatamente em nossa rua. Depois conversando com algumas pessoas que já realizaram a francisação, tomamos conhecimento de que não são todas as escolas que podem realizar esse curso, pois é necessária uma escola com mais recursos e equipamentos, e ficamos sabendo que em Laval seria no CEGEP – Collège Montmorency, localizado exatamente ao lado do metrô Montmorency. Quem tiver a curiosidade de localizar esse metrô é só procurar aqui no blog onde tem LINKS ÚTEIS e clicar no STM Métro e poderá observar no final da linha laranja, na parte de cima, o metrô Montmorency. Se me permitem abrir um parênteses, as últimas três estações do metrô da linha laranja são justamente as mais modernas da malha metroviária de Montréal e as únicas equipadas com elevadores. Ainda posso dizer que são bem mais amplas, limpas e seguras e estão todas aqui em Laval.
Passado o nosso primeiro mês aqui em Laval recebemos dois envelopes distintos, confirmando para nós dois o local, horário e data do início da bendita francisação, e como se não por acaso fosse, Edjane e eu ficamos na mesma sala. Dentro do envelope veio um outro envelope para que nós confirmássemos nossa vontade e disponibilidade para realizar o curso. Bastou assinar alguns papéis e confirmar alguns dados, depois colocar tudo dentro do envelope que veio, selar, enviar e ficar aguardando.
Passaram-se vários dias e não recebemos nenhum outro envelope ou telefonema... Ou seja, depois que você envia esse envelope confirmando a sua disponibilidade, você não recebe mais absolutamente NADA, só bastando ir para o curso no dia, hora e local marcado.
Para nosso desencargo de consciência, escolhemos ir um dia antes no local para fazermos um "reconhecimento de área", e mesmo sendo férias escolares e estando tudo fechado foi super útil nossa ida à escola porque ficamos conhecendo-a um dia antes, a fim de evitar qualquer atropelo ou dúvida, mas que aquela mosquinha estava atrás da orelha fazendo com que "EU" particularmente ficasse pensando se os nossos nomes iriam estar lá ou não, ah, isso ficou mesmo, mas resolvi não externar nada para Edjane não ficar apreensiva também, afinal já bastava um preocupado.
Até que enfim chegou o dia: logo cedo, pela manhã, estávamos prontos para o nosso "primeiro dia de aula"!!! Até parece coisa de jardim de infância, mas que tem um gostinho muito especial, ah, isso tem e ninguém pode dizer diferente, e quem ainda não experimentou em breve irá passar pelo que estou escrevendo aqui... É como se fosse o primeiro dia de aula da sua vida com o diferencial que hoje nós possuímos consciência formada e uma vasta experiência que o cotidiano da vida nos proporcionou, então esse primeiro dia se torna um dia em que você vai para a escola sabendo vivenciar cada segundo, coisa que infelizmente não acontece no nosso jardim de infância, afinal ainda éramos pequenos quando isso aconteceu e não tínhamos o menor discernimento de aproveitar tudo isso ao máximo, coisa que agora eu estou "descontando".
Após estacionarmos, seguimos para a escola. Entramos rapidinho e seguimos direto para o stand de informações. Mal dissemos que éramos estudantes da francisação e o senhor que estava dentro do stand foi logo apontando para um quadro onde já havia muitas outras pessoas que tinham chegado antes de nós. Puxa, esse pessoal acorda mesmo cedo para o primeiro dia de aula, e olha que era somente o pessoal do curso da francisação!!!
Após localizarmos nossos nomes, anotamos os dados da sala na qual iríamos ficar e rapidinho seguimos para lá.
Chegamos na porta e não havia ninguém por lá. Daqui a pouco foram começando a chegar uns e outros e nós lá em pé, calados e meio sem jeito. Mas como sou muito introvertido (quem conhece, que o diga!!!) então não foi muito difícil começar ali mesmo um papo informal. Conversa vai, conversa vem e daqui a pouco já estava conhecendo duas ou três pessoas; evidente que até esse momento só se falava em inglês.
Vão chegando mais e mais alunos e daqui a pouco vem uma Québécoise baixinha e animada, falando com todos já pelo corredor; ela abre a porta e pede para todo mundo entrar. Tomei a frente, entrei, e sentamos logo na primeira fila (aluno estudioso é assim mesmo, senta logo na frente para não ficar conversando 'miolo de pote' e prestar mais atenção às aulas - risos).
Todo mundo super desconfiado, falando com toda a educação e com muito 'rique-fife'. A monitrice (palavra francesa que designa 'monitora') apresentou-se: chama-se Veronique, nascida aqui no Québec. Ela realmente é um amor de pessoa e logo nos primeiros minutos já deu para ver claramente que ela não tem um parafuso a menos: pelo que parece e constatamos nos dias seguintes ela na verdade não possui parafuso algum, pois é excessivamente dinâmica, alegre, hiper-ativa e dedicada ao que faz. Com isso, conquistou de imediato a turma e logo nos primeiros minutos já estava o gelo quebrado completamente.
Em uma breve descrição da nossa turma, posso dizer que a mesma é literalmente uma mistura de cultura e tradiçoes onde temos como colegas de sala pessoas de diferentes nacionalidades, fazendo um ambiente totalmente multicultural. Além de nós, "os únicos brasileiros", na sala temos a companhia de amigos do Afeganistão, Alemanha, Armênia, China, Colômbia, Cuba, Guatemala, Iraque, Líbano, República Maldávia, Rússia, Síria e Sri-Lanka.
Além dos países acima citados temos que adicionar o Brasil, do qual somos os representantes, o Haiti (professor), e o Canada (a monitrice), totalizando representantes de quinze países diferentes, o que nos proporciona essa oportunidade única de integração e estreitamento de culturas que o dia-a-dia está nos oferecendo, pois notamos que enquanto os dias passam, a semana termina e outra começa, podemos sentir que todo mundo da sala desenvolve uma afinidade maior com o próprio grupo. Não é propaganda da Credicard, mas tudo isso que estamos vivenciando "não tem preço".
Se vocês observarem a nossa turma é um verdadeiro barril de pólvora, só espero que nenhum engraçadinho invente de levar o pavio e tente acendê-lo!!!!
Só para descontrair e ainda no primeiro dia, logo após o almoço nós ficamos sabendo que a alemã Karin foi multada em Can$ 85,00 (oitenta e cinco dólares) porque fumou em uma área na frente da escola onde não era permitido(veja na foto acima um dos pequenos desenhos que existem nas calçadas da escola), pois só é permitido fumar com a distância mínima de 11 metros do ambiente escolar, da calçada da escola e como ela estava bem próxima, o sistema de câmeras pegou-a no flagra e o segurança da escola foi lá e aplicou a multa. Ela tentou argumentar que não foi avisada e não sabia, mas aqui leva-se em consideração que você tem conhecimento das leis. Não teve apelação: foi multada e teve 30 dias para pagar. Fora essa resenha para descontrair, daqui a pouco chega uma pessoa batendo na porta e devolvendo uma carteira recheada com documentos e dinheiro. Quando procurou-se saber quem era o dono, era do afegão da sala. Tudo bem, ficamos todos calados porque isso é normal, pode acontecer com qualquer pessoa e em qualquer lugar. Passado mais algum tempo e já perto de irmos embora, chega um dos seguranças batendo na porta da sala. Quando ele mostrou aquela carteira, de longe todo mundo já olhou para trás: não deu outra, era novamente a carteira do nosso amigo do Afeganistão que tinha ido novamente no banheiro e tinha novamente esquecido por lá, é mole??? Nessa hora todo mundo já soltou aquele famoso "ahhhhhh...". A partir daquele momento tudo já dava a parecer que a turma era um pouco animada.
Não restou dúvida alguma em relação à turma: logo durante o início da segunda semana todos já começavam a querer conversar mais e mais uns com os outros e isso foi ficando cada vez mais presente.
Aqui e ali sempre mais uma novidade. Foi por um acaso que na quinta-feira da segunda semana após nosso almoço nós estávamos conversando com o nosso grupo quando o meu ouvido detectou no ar o sinal de uma língua possivelmente conhecida... Sentado, eu inclinei meu corpo um pouco mais para trás com a finalidade de identificar algumas palavras meio conhecidas. Não deu outra: era realmente alguém falando português em outra mesa atrás da nossa. Então eu, com toda a minha profunda "introspecção", levantei da nossa mesa, fui até à mesa vizinha e já cheguei perguntando se as duas jovens que encontravam-se ali falavam português. Para minha surpresa, fiquei sabendo que as duas eram do nordeste, mais especificamente uma de Recife (Ana Rosa) e a outra de Campina Grande (Keila) com a qual já saimos em um pic-nic no parque Mont-Royal. Daí pra frente não precisa nem dizer que trocamos e-mails e telefones e já estamos estreitando os contatos cada vez mais.
No dia seguinte após o almoço eu e Edjane seguimos para o 3° andar onde está a nossa sala e fomos ao banheiro para fazer nossa higiene bucal (escovar a chapa - risos). Daí que os dois banheiros estavam ocupados e como eles ficam lado a lado então começamos um papo qualquer. Só sei que nos aparece uma outra jovem por trás de Edjane, olha para nós e pergunta: "Vocês falam português?". Bom, pra encurtar a história (pois eu não gosto de escrever nadinha), a nossa nova amiga é da Bahia, (Maira) e tem mais um detalhe: essa jovem conhece Bayeux, Mari e outras cidades do interior da Paraíba, não me perguntem “como”, pois não saberia responder.
Québec, você que se cuide, porque pelo que parece os nordestinos estão vindo aí e não são poucos!!!
Na terceira semana tivemos um encontro geral com os alunos de outra turma de francisação, do mesmo nível que o nosso, em uma sala previamente preparada para nos receber. Entao não precisa nem dizer que a quantidade de países presente aumentou ainda mais com representantes da Índia, Paquistão e outros lugares. Para nossa surpresa encontramos mais um brasileiro, o Nilson. Ele é bem tranqüilo e graças a ele, numa oportunidade em que eu estava com o notebook na escola ele habilitou o bendito "til" ~ ~ ~, pois tem duas teclas aqui com o til, porém não estava habilitado para aparecer em cima das vogais e grátis ele habilitou o notebook para a rede wireless que a escola possui; ao mesmo só posso agradecer pela gentileza. Na nossa mesa ficamos o Nilson, Edjane e eu, e fomos os únicos que não precisamos de tradutores porque todo o contexto exposto em francês pela palestrante foi por nós entendido na íntegra; em outras palavras significa que “os três cabeções” representantes do Brasil são 'tampa' mesmo. Enquanto isso, nas outras mesas tinha sempre um tradutor para o grupo. Os tradutores são alunos do último nível de francês que são chamados para ajudar aos que participam dessa palestra inicial. Se antes eu achava que tinha gente de diferentes países em nossa sala, então precisavam ver depois que juntaram as duas turmas para essa palestra: aí sim é que se pôde notar ainda mais o multiculturalismo reinante no ambiente.
A palestra girou em torno da apresentação mais detalhada da escola e do curso de francisação como também mostrou e explicou o que iríamos encontrar ao longo das 33 semanas de curso. Essas semanas são divididas em 3 níveis, onde cada nível corresponde a 11 semanas de curso intensivo.
No fim da palestra e após todos se levantarem para sair, levanta-se da mesa dos russos uma russa e vem em nossa direção. Já chega sorrindo e dando um "olá" bem brasileiro. Conversamos um pouco, ficamos sabendo que ela morou por vários anos em Foz do Iguaçu e realmente aprendeu um português de dar inveja: ela não cometeu nenhum erro, realmente um português fabuloso e impecável.
Agora que já estamos entrando na quarta semana então já sentamos todos na mesa querendo e falando o francês. Evidente que existem várias arestas a serem cortadas e lacunas a serem preenchidas, pois ainda falta e muuuuuiiiiiiiiiito aprender o francês com as suas variações québécoises, mas o principal é que todo-mundo-ajuda-todo-mundo e todos sempre se ajudam explicando entre si o que se entende nas aulas, e durante o almoço, que dura uma hora, temos tempo suficiente de explorar em grupo perguntas pertinentes às culturas do outro, novamente sou obigado a repetir o que já havia dito anteriormente, tudo isso é como o Mastercard: "não tem preço".
Vou ficar por aqui e terminar as outras oito matérias atrasadas que já deveriam ter sido postadas no blog. Estamos nos dedicando muito à francisação e isso toma quase todo nosso tempo.
Erivaldo
10 comentários:
Fala aí meu velho.
Muito bom saber que as coisas estão saindo conforme planejou.
Agora vamos combinar o nordeste esta realmente invadindo o Canana, dem breve não precisará aprender o francês.
Uma observação:
Vc tem que melhorar somente a timidez, rsrsrsrsr.
Cara sucesso mais uma vez pra vcs.
Olá, sou Sulla Mino ( esposa do Henrique Pimentel João Pessoa - Piloto ) Sempre venho aqui, dou uma lida e tudo mais, acho tdo muito interessante, vcs devem achar tdo estranho não é?!!
Eu devo tomar cuidado qdo for aí, sou fumante. E sintam-se elogiosos, falar Francês deve ser magnífico. Mande-me link de páginas que eu possa aproveitar em casa, amo esta língua.
Desejo Sucesso e que a recompensa para vcs seja muito em breve.
Bjks,
Erivaldo Filho!!! rsrs
menino!! não sabia que tu gostava de escrever tanto!! acho que ganhou de mim, viu? coisas de família...rsrs
Não deu pra ler tudo, mas vou voltar pra ler o final da história.
Saúde pra vocês, sucesso e que Deus os abençoe. Muito interessante e divertida a sua história...
Um abraço da prima Rita
Olá Erivaldo e Edjane,
Eu achei este post F-A-N-T-A-S-T-I-C-O !!!! Como vc disse, é uma experiência que não tem dinheiro nenhum que pague. :-)
Um abraço,
Karol
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!! Ai meu Deus!! É de família falar pelos cotoveloss!! Aiai! Menino, como tu é inibido Erivaldooo!!!kkkkkkkkkkkk!
Adorei o post! Perfeitoo! Tenho saudades de você e da Edjane! Quando é que vôcÊs vêm aqui pra gente quebrar outro carro? kkkkkkkkkkkk!! Abraços de todos daqui! Valesck
Oi, Erivaldo
Eu adoro o seu blog justamente por causa desses posts enormes!!! É tanto detalhe que a gente se sente aí já!!! =]
Mas teve um comentário seu que me deu uma dor no coração!!! Vc dizer que o francês da França é o correto!!! É a mesma coisa que dizer que em Portugal eles falam correto e nós brasileiros falamos errado! Não existe certo e errado! É tudo variação da mesma língua, mudanças que ocorrem com o tempo... Assim a gente tinha que dizer que o português, francês, italiano, espanhol tá tudo errado, que o certo mesmo é o latim, né não?
Não é uma questão de certo ou errado, mas de prefência, do que soa melhor pra um e pra outro...
Eu acho que a gente tem que dar valor a nossa língua! Se estamos no Brasil, devemos dar valor ao "brasileiro", no Nordeste, ao "nordestinês" e no Canadá, ao "quebecoise" (ou qualquer coisa assim parecida!), sabendo que no fim das contas o que importa é se comunicar, se fazer entender e entender o outro.
Please, please, please, não me leve a mal!!! Eu só queria dar a minha opinião - que eu sei que muita gente discorda, mas se todo mundo pensasse igual o mundo seria uma chatice =]
Eu em geral sou bem na minha (ao contrário de vc, pelo q notei nesse post hehehe), leio 500 mil blogs e nunca comento... mas tem dois assuntos que eu não consigo ficar calada e me meto na cara de pau mesmo é dizer q alguém fala errado, ou ouvir mulher dizendo q lava a cueca do marido (todas as minhas amigas já ouviram um sermão meu pelo menos uma vez na vida!) É mais forte do que eu, não consigo ficar calada heheheh
Um abraço,
Paulinha
mudandodeendereco@gmail.com
Nossa senhora!!! Esse meu comentário ficou praticamente um post!!!
PAulinha
... ainda bem que vc fala pouco...
Abs
Nilson
leslapins.wordpress.com
Ola dupla dinamica, me permitam mas vcs estão adaptadissimos. Estou rindo até agora, o cara vai para o canada e encontra uma figura que conhece Bayeux, mari e etc...foi super engraçado mesmo. Adorei o post, como sempre bastante detalhista, até falar que inclinou o corpo para tras foi otimo. Parabens pela francisação...e essa mistura de povos realmente nao tem preço é isso que buscamos também, como vcs nao gostam de viajar, dentro em breve devem estar visitando cada pais. Um grande abraço e estamos com passagem marcada para 15 de maio, esperando apenas o pedido de passaportes. Fiquem com Deus e continuem postando.
Olá ! coisa boa reler esse tópico.. precisava saber do horário da francisation...hehe..
Melhor foi constatar que vcs sao muito gente boa pessoalmente também!
Entrem em contato conosco!
Bjs !
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